As cicatrizes cotidianas refletidas nos corpos: questões para a psicologia na escola

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Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas)

Resumo

A Autolesão Não Suicida (ALNS) é uma forma de violência autoinfligida que se tornou recorrente no cotidiano escolar, marcada por estigmas e respostas institucionais centradas em encaminhamentos clínicos, podendo reforçar a patologização do sofrimento. Embora seja reconhecida como questão de saúde pública, a literatura científica referente ainda é dispersa e apresenta lacunas importantes sobre estratégias de ação e prevenção comunitária na escola. Essa pesquisa parte da tese de que a perspectiva do sujeito, acessada em espaços de ação e reflexão no território escolar, favorece o processo de conscientização e a promoção de bem-estar psicológico. Para sustentar essa proposição, o estudo propõe uma malha teóica que une Teoria da Subjetividade, Psicologia Crítica Alemã e Pedagogia Crítica. A investigação ancora-se ontologicamente no Materialismo Histórico-Dialético; metodologicamente na Pesquisa-Ação-Participação, e epistemologicamente na Epistemologia Qualitativa. A Metodologia Construtivo Interpretativa (MCI) orienta a construção de indicadores, núcleos e zonas de sentido. O campo empírico compreendeu quatro anos de inserção da pesquisadora como psicóloga em escola municipal de São Paulo, facilitando encontros grupais com meninas do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental. As fontes de informações foram: (1) entrevistas individuais, e (2) transcrições dos encontros grupais e diários de campo; a análise foi apoiada pelo Atlas.ti 25 para sistematização e rastreabilidade interpretativa. Os dados resultaram em seis zonas de sentido (três por bloco analítico). Os resultados mostram que (1) a ALNS é frequentemente simbolizada como forma imediata de alívio, mesmo diante da consciência dos riscos associados; (2) que a família e a escola podem intensificar a ALNS ao reproduzir violências psicossociais concretas e simbólicas no cotidiano; e (3) a escola pode configurar-se como um espaço coletivo de ação e prevenção, quando institucionaliza práticas dialógicas mediadas pela psicologia e responsabiliza-se pela circulação do conhecimento sobre o fenômeno na comunidade. As zonas relativas aos encontros grupais revelam movimentos e tensões marcados por três eixos: (1) o corpo como território colonizado e lugar de inscrição das violências vividas; (2) processos de conscientização mediados pela palavra que possibilitam deslocamentos simbólicos; e (3) mediações psicológicas que favorecem tais deslocamentos, ainda que atravessadas por limites profissionais e institucionais. Tais achados explicitam que a subjetividade inscrita no corpo via ALNS, quando encontra espaço para circular, reconfigura-se nas trocas coletivas e na escuta profissional e comunitária, generalizando a capacidade de ação. Conclui-se que a perspectiva do sujeito, quando sustentada por práticas coletivas e dialógicas no interior da escola, produz deslocamentos simbólicos e subjetivos que ampliam a consciência e generalizam ações, reduzindo a centralidade da ALNS como recurso de enfrentamento restrito ao sofrimento. Para além do indivíduo, o trabalho psicológico implicado pode tensionar contradições sociais e culturais e contribuir para políticas de prevenção críticas e intersetoriais, deslocando respostas punitivas ou medicalizantes e produzindo cuidado contextualizado.
Non-Suicidal Self-Injury (NSSI) has become increasingly recurrent in school contexts, marked by stigma and institutional responses centered on clinical referrals that often reinforce the pathologization of suffering. Although recognized as a public health issue, scientific literature remains dispersed and presents significant gaps regarding community based strategies for action and prevention in schools. This study assumes that accessing the students’ subjective perspective through spaces of action and reflection within the school facilitates processes of conscientization and psychological well-being. To support this proposition, the research integrates a theoretical framework composed of the Theory of Subjectivity, German Critical Psychology, and Critical Pedagogy. The investigation is ontologically grounded in Historical-Dialectical Materialism, methodologically in Participatory Action Research, and epistemologically in Qualitative Epistemology. The Constructive-Interpretative Method guides the construction of meaning indicators, meaning configurations, and zones of meaning. The empirical field comprised four years of the researcher’s insertion as a school psychologist in a public school in São Paulo, facilitating dialogical group meetings with girls from the 6th to 9th grades. The sources of information included (1) individual interviews and (2) transcripts of group meetings and field notes. Data analysis employed Atlas.ti 25 to support systematization and interpretative traceability, resulting in six zones of meaning (three per analytical block). Results indicate that (1) NSSI is frequently symbolized as an immediate form of relief, even when students are aware of its risks; (2) family and school environments can intensify NSSI by reproducing concrete and symbolic psychosocial violence in daily life; and (3) the school can also become a collective space for action and prevention when it institutionalizes dialogical practices mediated by psychology and assumes responsibility for circulating knowledge about NSSI within the community. The zones derived from the group meetings reveal movements and tensions expressed through three axes: (1) the body as a colonized territory and site of inscription of lived violence; (2) processes of awareness mediated through shared speech that enable symbolic subjective shift; and (3) psychological mediations that support such processes, despite institutional and professional constraints. These findings demonstrate that the subjectivity inscribed in the body through NSSI is reconfigured when it finds space to circulate collectively, allowing for expanded forms of agency in daily life. The study concludes that accessing the students’ subjective perspective through collective and dialogical school practices produces symbolic and subjective reconfigurations that broaden processes of conscientization and expand agency, reducing the centrality of NSSI as a restricted mode of confronting suffering. Beyond the individual level, psychologically implicated work can challenge social and cultural contradictions and contribute to critical and intersectoral prevention policies, shifting responses away from punitive or medicalizing logics toward contextualized care.
La autolesión no suicida (ANS) se ha vuelto cada vez más recurrente en contextos escolares, marcada por el estigma y por respuestas institucionales centradas en derivaciones clínicas que, con frecuencia, refuerzan la patologización del sufrimiento. Aunque se la reconoce como un problema de salud pública, la producción científica permanece dispersa y presenta vacíos importantes sobre estrategias comunitarias de acción y prevención en las escuelas. Este estudio sostiene que acceder a la perspectiva subjetiva del estudiantado mediante espacios escolares de acción y reflexión favorece procesos de concientización y bienestar psicológico. Para sustentar esta proposición, la investigación integra un marco teórico compuesto por la Teoría de la Subjetividad, la Psicología Crítica Alemana y la Pedagogía Crítica. El trabajo se fundamenta ontológicamente en el Materialismo Histórico-Dialéctico, metodológicamente en la Investigación-Acción Participativa y epistemológicamente en la Epistemología Cualitativa. El Método Constructivo-Interpretativo orienta la construcción de indicadores de sentido, configuraciones de sentido y zonas de sentido. El campo empírico abarcó cuatro años de inserción de la investigadora como psicóloga escolar en una escuela pública de São Paulo, con la facilitación de encuentros grupales dialógicos con niñas de 6.º a 9.º grado. Las fuentes de información incluyeron entrevistas individuales, transcripciones de los encuentros grupales y notas de campo. El análisis se apoyó en Atlas.ti 25 para la sistematización y la trazabilidad interpretativa, resultando en seis zonas de sentido (tres por bloque analítico). Los resultados indican que (1) la NSSI se simboliza con frecuencia como un alivio inmediato, incluso cuando las estudiantes reconocen sus riesgos; (2) los entornos familiar y escolar pueden intensificar la práctica al reproducir, en la vida cotidiana, formas concretas y simbólicas de violencia psicosocial; y (3) la escuela también puede constituirse como espacio colectivo de acción y prevención cuando institucionaliza prácticas dialógicas mediadas por la psicología y asume la responsabilidad de hacer circular conocimientos sobre la NSSI en la comunidad. Las zonas derivadas de los encuentros grupales expresan movimientos y tensiones en tres ejes: el cuerpo como territorio colonizado e inscripción de violencias vividas; procesos de toma de conciencia mediados por la palabra compartida que posibilitan desplazamientos simbólico-subjetivos; y mediaciones psicológicas que sostienen tales procesos pese a restricciones institucionales y profesionales. Se concluye que prácticas escolares colectivas y dialógicas pueden reconfigurar la subjetividad inscrita en el cuerpo, ampliar la agencia cotidiana y reducir la centralidad de la NSSI como modo restringido de afrontamiento. En un plano más amplio, el trabajo psicológicamente implicado puede tensionar contradicciones socioculturales y contribuir a políticas críticas e intersectoriales de prevención, desplazando respuestas punitivas o medicalizantes hacia cuidados contextualizados.

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LORENZETTI, Laura. As cicatrizes cotidianas refletidas nos corpos: questões para a psicologia na escola. 2026. 249 f. Tese (Doutorado em Psicologia) - Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Escola de Ciências da Vida, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, 2026.

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